Grande banda
Grandes letras
- (Nada) quero-te assim -
Vem rastejar, que te faz bem,
Implora porquês que não vou responder
Geme a chorar, que te faz bem,
Sangra o teu mundo só para eu ver
Afoga-te em tudo o que não queres ter,
Que é só o que te vou mostrar
Vou fazer-te só o que não queres ser,
E vais gostar...
Quero-te assim...
Sacrifica o teu ar, que te faz bem,
Sufoca entre panos vestidos de azul
Tortura os teus olhos para veres bem,
Que arranhas a voz em tosses sem som
Afoga-te em águas e cores de lua
Sente o céu a quebrar!
Desfaço-te em tudo o que é teu
E vais-me amar...
Quero-te... assim
Só para mim
Só quando o sol te comer a pele
E o luar te roer a alma
Na lama que te arranca as asas
Quando fores ave amarrada
Vais voar no meu céu negro!
vais ser nada...nada...nada...nada...
Vem rastejar, que te faz bem,
Sangra o teu mundo, que te faz bem.
Toranja, Esquissos
Como sou de Coimbra, e como adoro o que o José Luis Peixoto escreve, resolvi transcrever um texto que ele escreveu sobre esta cidade....
Coimbra
"Não acredito que se possa deixar de relacionar a memória que temos de um espaço com as coisas que lá vivemos. Coimbra é a mais bonita de todas as cidades que já conheci na vida. Em Coimbra, nasceu o meu filho.
Na Primavera, a luz é a claridade. A luz limpa que desenha todos os contornos de uma nitidez bela, como se fosse a luz que trouxesse beleza às ruas, aos edifícios, aos rostos. Lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera: o ruído de centenas de pássaros invisíveis nas copas das árvores da Praça da República. Lembro-me de estacionar o carro no Terreiro da Erva, avançar pela Rua da Sofia – que, nesta cidade de doutores, não significa o nome próprio, mas a palavra grega «conhecimento» –, lembro-me de atravessar a Rua Ferreira Borges, com o meu filho ao colo, ao lado de uma pequena multidão que observava montras ou que passeava com o desprendimento e a satisfação de passear. Lembro-me de procurar um lugar vago numa das esplanadas do Largo da Portagem. De um lado, o rio Mondego; do outro, as pessoas. Duas correntes serenas, iluminadas por essa claridade da Primavera. Depois, o tempo a ser, também ele, uma corrente serena. O tempo também iluminado por essa claridade que parecia anunciar a ressurreição do mundo.
A latada, os rasganços, a queima das fitas. A cidade vive pelos horários da universidade. Os estudantes são o sorriso com que a cidade sorri. Passam vestidos de negro ou sentam-se nos cafés que têm letreiros a dizer: «Proibido estudar». O seu sorriso é jovem há muitos séculos: os que chumbam consecutivamente para não abandonar a república onde vivem, os que vão a casa de comboio no fim de semana, os que se sentavam a meu lado nas esplanadas da Praça da Portagem quando era Primavera.
Em Coimbra, os lugares são tão bonitos como os seus nomes – Penedo da Saudade, Quinta das Lágrimas –, em todos eles se respira a serenidade longa de um tempo que demora e que não exaspera. A cidade é também o seu tempo. Subir ao convento de Santa Clara e fazer o nosso olhar atravessar o rio, toda a distância. Caminhar no Jardim da Sereia, nas ruas da baixa. Sentar-se numa esplanada.
O Diário de Coimbra dá as novidades da Académica. Será que vai voltar à primeira divisão? Em todos os cafés há um homem a ler o jornal. É Primavera, pois lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera. Também há crianças a correr. O meu filho quer correr, mas é demasiado pequeno e fica no meu colo, a beber colheres pequenas cheias de leite morno, muito atento aos outros meninos. Faço-lhe uma brincadeira qualquer e ele sorri, olha para mim. É Primavera. Há algo de felicidade aqui.
À noite, há um bailado no Teatro Gil Vicente, as trupes de estudantes andam silenciosas pelas ruas, os namorados estacionam os carros no convento de Santa Clara e beijam-se diante das luzes da cidade: a torre da universidade lá em cima, os fios de luzes até à baixa estendem-se no rio. O dia nascerá atrás da cidade. A claridade atravessará vários tons até chegar o fim de tarde e eu estacionar o carro no Terreiro da Erva e chegar ao Largo da Portagem com o meu filho ao colo e nos sentarmos numa esplanada a sermos felizes.
Hoje, o meu filho já anda, já corre. Ao domingo, vamos à feira de Santo António dos Olivais ou vamos à feira da Rainha Santa. O meu filho foge-me da mão e começa a correr. Eu páro-me a vê-lo. O seu corpo pequeno ensina-me a ternura ou qualquer outra coisa grande. De certeza que é Primavera nesta cidade. O meu filho corre na claridade. Penso que um dia havemos de jogar à bola no Jardim da Sereia. O meu filho não sabe o que penso, mas olha-me e sorri, chama-me «papá». Sorrio também.
Às vezes, sentamo-nos na espalanada do café Santa Cruz. O meu filho conta-me das brincadeiras do infantário, conta-me dos colegas. Conversamos. As pessoas passam, como se passasse a cidade, como se passasse o tempo. Mas Coimbra está parada na claridade dos olhos do meu filho, na claridade dos meus olhos. Ainda assim, nesse tempo parado, chega a hora da despedida. Dou um abraço ao meu filho, sinto o seu corpo pequeno dentro dos meus braços.
No carro, Coimbra fica para trás. Cada vez mais longe. É noite. Coimbra é a cidade mais bonita de todas as que já conheci na vida. Em Coimbra nasceu o meu filho."
Muito bonito este texto...
A minha cidade.
Alguém me aconselha um bom livro?
Apetecia-me embarcar numa história, num mundo. Mas a variedade é tanta... e eu confesso que nos últimos tempos não tenho lido nada, a não ser apontamentos e os jornais que compro semanalmente. Por isso, se alguém me puder indicar qualquer coisa que tenha achado interessante...
Obrigada.
Os pesadelos - sim, aquelas coisas más com que sonhamos por vezes, ou imaginamos, mas que pensamos que não passam disso mesmo: imaginação - acontecem.
Isto pode parecer banal de dizer... Mas já tiveram alguma situação em que se dessem conta de que está realmente a acontecer um pesadelo?
Pois... o que eu quero dizer com isto é que durante a vida, vamos sendo surpreendidos com as mais variadas coisas.. e temos muito pouco controlo sobre nós próprios. Mesmo aquelas coisas que tememos, mas julagamos serem improváveis de acontecer, a qualquer altura podem ser reais. A morte é uma das coisas mais temidas, mas todos sabemos que VAI acontecer. Mas, e os nossos medos mais secretos, mais bizarros? Sim, talvez não valha a pena pensar nas possibilidades de um dia acontecerem.
De qualquer forma, quando acontecem, deixam marcas... e fazem-nos mudar drásticamente.
Se há artista, poeta, escritor, interprete, compositor, que eu admiro e adoro.... é sem dúvida Sérgio Godinho. Se querm que vos diga, acho que não há uma só música dele onde não haja aquele toque de inteligência, aquela volta nas palavras, aquela sonoridade especial... Ao longo de tantos anos, sempre atento à realidade, sempre actualizado, sempre com uma criatividade genial... faltam-me as palavras para dizer o que sinto quando ouço Sérgio Godinho. Confesso que ouço até as músicas de intervenção com uma certa emoção, mesmo só tendo nascido em 79.
Ele tem, de facto, dado muito à música portuguesa, e é bom que não nos esqueçamos que por cá também existem realmemte génios na música, que deixam marcas profundas e nos emocionam...
Transcrevo aqui uma música especial...
Mudemos De Assunto
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um dia ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é fragil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
